Terza Lima, docente universitária nos EUA, impressionada com nível do ensino superior em Cabo Verde: “Precisamos dar valor àquilo que temos”

A cabo-verdiana Terza Lima-Neves, directora do departamento de Ciências Sociais e professora do curso de Ciências Políticas da Johnson C. Smith University, na Carolina do Norte, ficou surpreendida com a qualidade do ensino superior em Cabo Verde. A docente, que está em São Vicente com dois alunos norte-americanos para intercâmbio com colegas e professores do curso de Ciências Políticas da Universidade do Mindelo, destaca sobretudo a relação entre o corpo docente e os universitários, a par da integração desse estabelecimento na sociedade.

“Sinto que não damos valor a aquilo que temos. Fui para os EUA com 13 anos e, nos dois primeiros anos, fiquei um pouco aborrecida na escola porque repetiam as matérias que já tinha estudado aqui. É por isso que digo que temos um sistema de ensino forte em Cabo Verde. Os alunos daqui estão preparados para enfrentar os desafios. Se eu pudesse, trazia os meus filhos para iniciarem a aprendizagem aqui, e só depois os levava para os EUA para frequentarem o liceu. Com certeza, estariam mais preparados”, afirma esta docente, que valoriza em especial a parte prática do ensino.

É que, segundo Terza Lima-Neves, nos EUA os estudos são essencialmente teóricos, pelo que os alunos só iniciam a prática quanto entram no mercado de trabalho. “Fiquei agradavelmente surpreendida ao perceber, pelo menos em relação à Universidade do Mindelo, que a sua missão não é apenas ensinar. Visitamos a Escola de Enfermagem e os meus alunos me disseram que se está a fazer aqui em São Vicente aquilo que devia ser feito nos EUA, ou seja, misturar aulas teóricas com prática. Por exemplo, durante a visita fomos para a área de Oftalmologia e, como usamos óculos, fizemos uma ´consulta`. No meu caso, constactaram que tenho estigmatismo. Isso mostra que a universidade serve a sociedade, não se trata apenas de um lugar para estudar”, exalta.

Semelhanças e diferenças entre os cursos

Nesta que é a sua segunda deslocação a São Vicente – que termina esta quarta-feira –, Terza explica que esta visita é mais especializada. Veio acompanhada de dois alunos prestes a concluir a licenciatura em Ciência Política para conhecer o conteúdo da disciplina de Relações Internacionais, que faz parte do curso. No fundo, de acordo com esta professora, querem saber as semelhanças e diferenças, conhecer os testes suportes desta disciplina e a abordagem, sobretudo se é a nível local, regional ou global.

“Chegamos no dia 04 de Fevereiro. Durante duas semanas visitamos a Universidade do Mindelo, tivemos encontros com os professores e alunos e conhecemos os cursos. Os meus alunos ficaram surpreendidos com a abrangência do curso, que não se restringe à realidade do país. Esta visita teve também um cunho cultural porque queríamos que os nossos estudantes conhecessem a arte e a cultura desta ilha e do país. Também visitamos Santo Antão, acompanhados de uma guia turístico, que nos mostrou a beleza desta ilha, sobretudo as suas montanhas”, pontua.

O próximo objectivo de Terza Lima-Neves é levar estudantes e professores de Cabo Verde para um intercâmbio nos EUA. Reconhece que não é uma tarefa fácil por causa da dificuldade em conseguir um visto, e também por causa dos custos, o que leva esta docente a afirmar que o Governo devia se esforçar para, junto com as autoridades dos EUA, ultrapassar as barreiras burocráticas. Defende ainda a necessidade de haver contactos oficiais com outras universidades, para além de a de Massachussetts, até porque existem comunidades cabo-verdianas em quase todos os Estados, e não apenas na Nova Inglaterra.

No seu caso, refere, para além da UniMindelo, também relaciona-se com a Uni-CV na Praia, através de um projecto que tem a ver com Género e Igualdade. “Na minha primeira deslocação a Cabo Verde, em 2017, trouxe seis alunos dos cursos de Psicologia, Estudos Sociais e Ciências Políticas. Na altura, visitamos as áreas que tinham a ver com estas licenciaturas. Desta vez trouxemos dois alunos de Ciência Política, em final de curso, para um intercâmbio na UniMindelo. O balanço destas duas visitas é positivo”, explica esta cabo-verdiana, que nasceu na Ribeira Bote e que tem intenção de, no futuro, fixar residência em São Vicente. “Estou a criar oportunidades para as universidades de Cabo Verde. O meu objectivo é mostrar que o nosso país não é perfeito, mas está a desenvolver. Vamos chegar lá”, acrescenta.

Institucionalizar parcerias

Para isso, Terza Lima-Neves defende a necessidade de se firmar uma parceria mais formal com as universidades cabo-verdianas. É com este objectivo que estão a trabalhar um projecto na Johnson C. Smith University, um “Global Center”, que propõe institucionalizar o intercâmbio com instituições de ensino superior em Cabo Verde, alunos e professores. “Queremos fazer uma troca ou intercâmbio, através de uma parceria formal e institucional. Neste momento é difícil enviar algum material para Cabo Verde, por exemplo. A Johnson University fica na Carolina do Norte, que é muito distante. Temos de formalizar as relações com a nossa embaixada nos EUA para ver como resolver esta questão”, constata.

Até lá, Terza dá-se por satisfeita com o trabalho que está a fazer e o “feedback” dos seus alunos, que vão fascinados de Cabo Verde, inclusive alguns estão a preparar férias no país e já falam em solicitar cidadania cabo-verdiana.

Fonte: MindelInsite