Obrigada cabo-verdianos e não só! Campanha de Solidariedade “Cabo Verde Está Contigo Ecuador”

10 de Agosto de 2016: Não poderia haver ocasião mais significativa para apresentar este “Muito obrigada ao povo de Cabo Verde!”

 

Isto porque a data de 10 de Agosto é para os equatorianos todos, dentro e fora do país, um momento que marca a nossa História Nacional e a História de toda a América.

A 10 de Agosto de 1809 deu-se “O Primeiro Grito de Independência em América”, ideia sustentada no fundamento político-filosófico que esteve na base de dois documentos de elevada importância para a nossa História Pátria: a Declaração de Quito e a Ata de Independência, estabelecendo a rutura do equilíbrio colonial e abrindo os caminhos da liberdade face ao absolutismo espanhol, reinante na época.

Se bem que a história registe a Independência dos EUA (1776) e a Revolução Haitiana (1804) como antecedentes históricos de grande notoriedade, os acontecimentos do Equador adquiriram relevância continental, em grande medida, porque os patriotas que lideraram esse movimento de libertação foram todos assassinados. Deram o seu sangue em nome do mais nobre ideal: a liberdade.

O grande líder latino-americano Simon Bolívar, “el libertador de cinco naciones”, reconheceria com profundo respeito, o valor destes heróis, chamando aos patriotas equatorianos de “Os gestores da emancipação latino-americana” e, inspirado nos factos de Agosto de 1810, lançou a sua proclama: “Guerra ou Morte”, contra o absolutismo espanhol.

Esses heróis são lembrados hoje, 10 de Agosto de 2016, no meu querido Equador, com desfiles e homenagens, e por cá, em Cabo Verde, apresento a minha singela homenagem através destes sentidas palavras.

A estes Heróis, a minha eterna gratidão, pelos seus sonhos, pela sua luta, pelo seu exemplo, pela sua morte na defesa dos seus ideais; não desistindo, vencendo os medos, assumindo a Pátria como bandeira, deixando os interesses pessoais ou de grupos do lado e pensando na Nação Equatoriana como um todo. É assim que todo o cidadão digno deveria pensar o seu país: como um todo.

É por este feito histórico, por esta luta e por estes Heróis que Quito, a Capital do Equador, foi reconhecida pela UNESCO como a “Luz de América”, e posteriormente, como Património Cultural da Humanidade. Se algum dos caros leitores ouvir alguma vez que uma cidade do mundo é conhecida como “a carinha de Deus”, saiba que “essa” também é Quito.

Hoje, 10 de Agosto de 2016, com muita emoção, rendo uma sentida homenagem, aos mais de 16 milhões de equatorianos, que lutam cada dia para dar condições duma vida digna às suas famílias, a minha homenagem aos que representam o país com honestidade e dignidade nas instituições nacionais e supranacionais, aos que acordam cedo para alimentar os seus filhos e levá-los para a escola, às mães que “são pai e mãe” nas suas casas e marcam seus filhos com o selo dos valores essenciais duma vida digna.

A minha homenagem a cada equatoriano que cria uma empresa, seja ela grande ou muito pequena, a cada trabalhador da cultura que não esquece as nossas raízes, nem os contributos que a nossa história recebeu ao longo dos tempos; a homenagem sentida aos que defendem a Pátria e a protegem, aos que cultivam as terras “teimosamente”, aos que saem ao mar na faina diária, aos que fazem ciência sem perder o sentido de humanismo, aos que entoam as sagradas notas do nosso Hino Nacional com a mão no peito e com o sentido de Pátria na alma e na ação.

A minha homenagem, aos equatorianos que cada dia acordam para sair ao trabalho ou as escolas, muitas vezes vencendo sérias dificuldades, mas com o eterno sorriso nos lábios, como dizendo: “Aqui estou eu, eu vim para vencer”.

Nesta significativa data, 10 de Agosto de 2016, a minha homenagem profunda a todos os nossos irmãos equatorianos, que não se deixaram vencer pelas forças incalculáveis da natureza, que a 16 Abril passado, acordou descontrolada, motivando um sismo de magnitude 7,8 na escala de Richter, provocando mais de 700 mortos (23 estrangeiros), mais de 6000 feridos e 28.775 desalojados. Os dados recolhidos pelo Gabinete da ONU para a Coordenação de Assuntos Humanitários indicam que o abalo afetou diretamente mais de 1 000.000 de pessoas.

A minha gratidão a todos os altos representantes dos países-irmãos que a seguir ao terramoto, sublinho: “imediatamente a seguir”, manifestaram verbalmente a sua solidariedade e já nessa altura, tinham ordenado aos seus pilotos militares prepararem os aviões para carregar material de apoio para o país-irmão, vítima desta desgraça. Obrigada àqueles que, “como o sangue que corre à ferida”, não pensaram duas vezes, e no dia a seguir já estavam no solo equatoriano. Obrigada: Argentina, Bolívia, Canada, Chile, China, Colômbia, Coreia do Sul, Costa Rica, El Salvador, Espanha, EUA, Guatemala, Guiné-Equatorial, México, Vaticano, Panamá, Reino Unido e Venezuela. Horas depois, a lista de países não parava de aumentar.

O Equador, caros leitores do Jornal “A Semana”, está no “Cinturón de Fuego del Pacifico”, que se estende por 40.000 Km (25.000 milhas) e tem 452 vulcões, onde se concentram mais de 75% dos vulcões ativos e inativos do mundo, sendo considerada pelos cientistas como a região mais sísmica do mundo.

Ali está o meu país!

Por cá, na altura do desastre: a ansiedade, o medo e a angústia que tomavam conta de mim, da minha família, dos amigos e conhecidos, tomava conta também, dos pais dos jovens cabo-verdianos que estão a estudar Medicina no meu país, graças a um acordo de cooperação entre as Universidades equatorianas e a Universidade do Mindelo.

...Medos, chamadas sem respostas, informações e desinformações -natural nestes casos- enfim, muita emoção à flor da pele….

Mas também a solidariedade falando muito alto nesta terra da “morabeza”, que conheço muito bem. Não tardaram os gestos amigos: um ex- aluno meu (Kessy), estudante em Portugal na área do design e da publicidade, enviou-me um logotipo para identificar a Campanha Solidaria que se chamaria “Cabo Verde está contigo Ecuador”, onde aparecem as nossas bandeiras e as nossas mãos unidas num vivo gesto de fraternidade internacional. Este logotipo serviria para que muitos amigos, cabo-verdianos e não só, pudessem demonstrar a sua solidariedade através das redes sociais, e enviar essa energia positiva, tão necessária nestes casos. Amigos das mais diversas nacionalidades se manifestaram através do facebook, depois dos cabo-verdianos, amigos de Cuba, Portugal, Sérvia, Brasil, Argentina, Líbano, Angola, Moçambique, Palestina, Haiti, Rússia, El Salvador, etc., etc. Obrigada a todos!

Recebemos também uma carinhosa mensagem de encorajamento do nosso Bispo Dom Ildo Fortes, e como católica que sou, este gesto foi muito significativo. Mas também, amigos de outras confissões religiosas manifestaram seu carinho e apoio, nomeadamente alguns pastores da comunidade Nazarena e irmãos muçulmanos estrangeiros residentes no Mindelo.

Na igreja dos Padres Salesianos, na missa dominical, e na Igreja da Nossa Senhora da Luz, os mindelense pediram a Deus que proteja o meu povo. Muito obrigada pela sua solidariedade e esta clara manifestação da “misericórdia” que tanto nos pede o Papa Francisco.

Na estratégia e na ação de solidariedade, o reitor da Universidade do Mindelo, Doutor Albertino Graça, disponibilizou todos os meios para que a comunicação com o Equador e os nossos estudantes flua de forma ágil. Neste contexto surge a ideia de fazer uma campanha solidária para recolher donativos para as vítimas do terramoto, no seio da UM. Na Universidade do Mindelo: Filipe Mandl e Dominica Swolkiem, à frente de uma equipa de apoio, põem as mãos no trabalho de divulgação e promoção das ações.

As rádios e a televisão de Cabo Verde abraçaram a ideia desde o início e foi possível a divulgação da campanha solidária. Obrigada a todos!

O Professor universitário Emanuel Spencer, em concertação com o reitor da UM, lançou um apelo aos docentes da UM para doar uma hora de aulas para o Equador, muitos docentes aceitaram e solidarizaram-se com as vítimas do sismo. Os alunos da Universidade do Mindelo deram também o seu contributo monetário, doando parte das receitas duma atividade académico-recreativa. Muito obrigada a todos!

Pensamos então numa Gala Solidária: o Gabinete Pedagógico da Delegação de Educação de São Vicente (com a Dona Bibia à cabeça) e a Câmara Municipal de São Vicente, com o seu Presidente Doutor Augusto Neves dirigindo a sua equipa, prontamente acolheram a ideia, com um profundo sentido de humanidade. Muito obrigada a todos!

Os artistas -grandes artistas e grandes pessoas-: Dany Batista e a sua Banda, o grupo musical “Sab Sabim” (com o apoio do Danny e o Frei capuchinho Silvino Benneti), o grupo de dança “Alma Kriola”. Os cantores: Hermínia Graça, Constantino Cardoso, Gai, Otelindo Delgado, Neusa Silva, Margarida Martins, Marly Brito, Alcindo Moreno, Idília, e a Melany e o seu violino. O grupo “Salsa +”,que estava também incluído no programa não participou por estar de luto pela morte do amigo e bailarino Prof. Samuel, que foi também homenageado na noite da Gala, por ser uma pessoa muito dinâmica e de generoso coração. Muito obrigada a todos pelo seu carinho e por fazer da arte uma manifestação, não só da beleza, senão também um símbolo do amor universal.

Muito obrigada ao diplomata equatoriano Doutor Horacio Sevilla Borja, na altura Embaixador do Equador no Brasil e atualmente representante do Equador perante a ONU, que esteve sempre atento e disponível para ajudar na evacuação dos estudantes cabo-verdianos, que vieram a Cabo Verde. Obrigada ao diplomata cabo-verdiano Estevão Tavares, também à frente deste processo importante e nevrálgico. Obrigada à Embaixada de Cabo Verde no Brasil.

Hoje o meu povo recompõe-se, trabalha para dinamizar de novo a economia do país, as famílias juntam-se para apoiar os vivos e nunca esquecer os que partiram. A coragem do meu povo é um sinal que carrega destes tempos imemoriais.

A intenção da campanha de solidariedade não foi recolher grandes quantidades de dinheiro, sempre consideramos que era importante manifestar a nossa solidariedade desde Cabo Verde, desde este pequeno arquipélago, ao outro lado do mundo, e para isso uma quantidade qualquer seria apenas: O GESTO SIMBÓLICO de um profundo sentimento de AMOR E AMIZADE ENTRE DOIS POVOS IRMÃOS.

É muito grato para mim poder informar todos os amigos cabo-verdianos e não só, que apoiaram esta causa, que através do gabinete de contabilidade da Universidade do Mindelo foram depositados os 121.550 escudos cabo-verdianos que conseguimos arrecadar, na conta aberta para este fim pelo governo do Equador. Comunico também que recebemos um agradecimento especial por parte de Sua Excelência, o Sr. Embaixador Horacio Sevilla Borja, representante do Equador perante as Nações Unidas, onde manifesta o seguinte:

“Em meu nome e em nome de todo o povo equatoriano, recebam, irmãos de Cabo Verde, o mais profundo agradecimento e a expressão sentida da nossa eterna amizade”.

Caros amigos de Cabo Verde e não só, na noite da Gala Solidaria “Cabo Verde está contigo Ecuador”, celebrada a 5 de Junho de 2016, na Academia de Música “Jotamonte” na cidade do Mindelo, a emoção tomou conta do público quando o jovem estudante Milton Pires, da Escola Secundária “Dr. José A. Pinto”, declamou o poema “Ponte sobre o oceano” da poetisa bravense Dona Maria Faria de Brito, e o dedicou aos povos de Cabo Verde e Equador.

É com carinho que me permito partilhar convosco, caros leitores, alguns destes versos:

O nosso oceano não é mar, mas grande rio

Que une as duas margens com amor:

Se de uma, os índios enviam setas de Cupido,

Da outra, os negros respondem, ao ribombar do tambor. …

Amigos dos nossos amigos,

Espalhados pelo mundo,

No mar nascemos,

No mar ficamos,

Amando o nosso irmão

Do além-mar.

Sempre partindo,

Sempre regressando!

Obrigada CABO VERDE!

DEUS ABENÇOE O EQUADOR, DEUS ABENÇOE CABO VERDE E O MUNDO!

Por: Rosa Pazos

In: AsemanaOnline